POEIRA
Um dia ou outro, é verdade, a poeira, uma vez que persiste, começará provavelmente a triunfar [...], invadindo com imensos escombros construções abandonadas, docas desertas: e nessa época longínqua, nada mais subsistirá para salvar dos terrores noturnos, na falta dos quais nos tornamos tão grandes contabilistas.
Georges Bataille, 1929[1]
A Galeria Base, de São Paulo, reúne, na exposição coletiva Cosmatéria, obras dos artistas Arthur Arnold, Lucas Länder, Montez Magno e Natália Guarçoni. São pinturas, objetos e fotografias com especificidades bastante evidentes, é claro, mas que mantém em comum certa ode à matéria.
De Montez Magno – artista camaleão, como se identificava devido à profusão de suas práticas e experimentações – são exibidas obras de diversas fases. Duas fotografias elaboradas do período em que se interessou pelo conceitualismo e pela vanguarda europeia; pinturas abstratas, dentre as quais o desdobramento mais recente aqui mostrado é a acrílica da série Fachadas do nordeste, com elementos da arquitetura vernacular; dois trabalhos em que o artista tematiza a estação do outono; e Ouro de Cuba, uma assemblagem na qual fica clara a ascendência poética de Magno. O título desta última, de semântica espiralar, contrasta com a materialidade da obra – que é sugerida pelo fato de Ouro de Cuba ser uma marca de charutos –, lançando a questão: onde reside, afinal, o valor maior daquele país?
Natália Guarçoni apresenta pinturas das suas séries “Blocos” e “Frisos”, de 2025 e “Momentos concretos”, 2023. São obras feitas com tinta e textura acrílica, e, em alguns casos, ainda areia, materiais que a artista aplica sobre o linho. A transitoriedade e a transformação são questões incontornáveis nas pinturas de Natália. No entanto, ainda que à primeira vista possam operar na suavidade e no silêncio, não lidam senão com a eminência do caos ou, se preferirmos, da inconstância e, por consequência, da morte – não como um fim, mas também ela, como metamorfose.
Para suas assemblagens que Lucas Länder usa nanquim, aquarela e pigmentos naturais, aplicados sobre papéis que são, por fim, colados sobre madeira com encáustica de cera. Um processo espessado que, a despeito das metodologias se repetirem na elaboração das obras, geram imagens que mais remetem ao descontrole e ao informe que, como diz Bataille, não é apenas um adjetivo que tem esse ou aquele sentido, mas um termo que serve para desclassificar, exigindo que cada coisa tenha sua forma.[2] Não há resultado previsível nas operações de Lander. Elas nos mostram o curso do acaso operado pelas matérias que ele orquestra ou coreografa junto com elas.
O trabalho de Arthur Arnold comenta a si mesmo tanto formal quanto poeticamente. Suas composições pensam a própria materialidade pictórica, expondo, alla Lucio Fontana às avessas, as entranhas da pintura, ao ponto de torná-la relevo, dado o recuo do plano que as espessas camadas obtêm. O uso da argamassa, material que, como o artista reforça, é usado para construções, parece repetir o procedimento da constituição do eu: a perda das idiossincrasias que se dissolvem na massa informe das multidões são, em outro momento, recuperadas nas tentativas de pertencimento, também investigadas por Arthur.
O tratamento dado aos materiais, tal como oferecido pelo heterogêneo grupo de artistas de Cosmatéria os tomam para além do que eles “deveriam ser”[3], senão chegando a libera-las de suas condições de ideal e de valor, pelo menos permitindo que antes de quaisquer representações ou fetiches, as matérias sejam, organismos, corpos que tendem, em algum grau, ao amorfismo. As matérias com as quais eles trabalham (compostas de pigmentos, resinas, areia, poeira, cimento, algum metal) possuem mais ligação com outros elementos do universo do que se possa supor. É preciso assumir que todos os corpos, inclusive os celestes, não escapam a essa máxima – a própria lua, que aparece na obra de Montez Magno, que vemos refletir determinados ângulos da luz do sol, operação à qual chamamos “fases da lua”.
A vida é um fato principalmente solar, escreveu Emanuele Coccia, observando também que em cada organismo terrestre (a Terra é, também ela, um astro, vale reafirmar) há o corpo metamorfoseado daquela estrela. Se, como diz Coccia[4], tudo que vive sobre a Terra é de natureza astral, não há senão céu por toda parte.
Marina Câmara
[1] Verbete POEIRA In: Documents: Georges Bataille; Tradução João Camillo Penna e Marcelo Jacques de Moraes. – Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2018.
[2] Verbete INFORME, IBIDEM.
[3] O baixo materialismo [...] tem como função desclassificar, isto é, ao mesmo tempo rebaixar e liberar de qualquer prisão ontológica, de qualquer "dever ser" (modelo regulatório). Em primeiro lugar se trata de desclassificar a matéria, de tirá-la das garras filosóficas do materialismo clássico, que não é senão um idealismo travestido: "A maior parte dos materialistas [...] situou a matéria morta no topo de uma hierarquia convencional de fatos de ordem diversa, sem se dar conta de ceder, assim, à ocasião de uma forma ideal da matéria, de uma forma que se aproximaria mais que qualquer outra àquilo que a matéria deveria ser". Tradução nossa. BOIS, Yve-Alain; KRAUSS, Rosalind E. L'informe: istruzioni per l'uso. Tradução de Elio Grazioli. Milano: Bruno Mondadori, 2003.
[4] COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Tradução de Bernardo Barros Coelho de Oliveira. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2018.







