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Ao menos desde a segunda metade dos anos 1960, parte da melhor produção brasileira esteve em trabalhos voltados ao fracasso da percepção. Dá para imaginar, afinal de contas, que não era fácil seguir otimista depois do AI-5, que dava adeus a todas as promessas neoconcretas de uma arte como experiência libertadora. Artistas como Cildo Meireles, Antonio Dias e Waltercio Caldas exploraram, de formas muito diferentes, o medium expandido – que Hélio e Lygia trataram como uma ativação do espectador – para criarem soluções em que os sentidos acabassem cometendo sempre enganos. Seja através de uma esfera parecendo mais pesada do que é ou um espaço raso que induzisse os olhos a enxergarem profundidade, a experiência virava sinônimo de falha e os sentidos se revelavam sempre limitados.

Mas por que diabos trago essas considerações todas? Porque, ao contrário dos artistas citados acima, que precisavam expandir ou negar o medium para instalar a dúvida sensorial em seus trabalhos, Angerami, Pico e Ted chegam a um pessimismo parecido sem abrir mão de enfrentar a fragilidade de tudo o que fazem. Esculpir por esculpir, pintar por pintar ou fazer alguma coisa simplesmente porque só parece poder ser desse jeito tromba, dia após dia, com a quimera de certa exigência por um engajamento além da própria experimentação. Só que esses trabalhos experimentam com a linguagem justamente para revelar a descrença sobre alguma mudança pela frente, que se une a tudo o que um medium pode fazer para descobrir seus próprios limites.

A análise dos trabalhos deve tornar a relação mais clara. Veja a produção de Evandro Angerami, por exemplo, que tem pintado paisagens praianas sem parar. Angerami cresceu em São Paulo e foi pintar a maioria dessas telas no Rio de Janeiro. Qualquer um que já tenha visitado São Paulo sabe que, em qualquer passeio, é difícil não esbarrar com paredes de concreto quase desrespeitosas. Por isso, talvez, é que também seja difícil encarar uma pintura do artista sem acabar distraído com esses céus que se revelam quase que como muros de concreto espesso que cobrem a sua retaguarda. A timidez das montanhas, quase engolidas por um fundo tão invasivo, depõem em favor de uma natureza fadada ao acanhamento sob o malgrado desses céus.

Penso que o desafio, e provavelmente a grandiosidade da pintura de Angerami, está no fato de que o artista acaba pintando São Paulo numa praia carioca. Para não falar dos céus cinzas – que realmente lembram, e pesam como, paredes – são raros os trabalhos em que montanhas não se revelam quase que segurando o peso dos céus a ponto de parecerem moldadas por ele. A composição vem de cima para baixo, como se a realidade fosse torneada por tudo aquilo que vai além dela. Em lugar de moldar um horizonte que expande e eleva as coisas, o seu aparente elogio à natureza acaba eclipsado pelas dores tomadas pelo artista sobre a própria distância que já tomamos de propósitos que poderiam nos redimir, de modo que, num exercício de pintar praias, nada se contenta o bastante para ser mais do que um horizonte. E é por isso que a espécie de horizontalização, que habita a maior parte das telas, leva os elementos a parecerem moldados como se virassem montanhas posicionadas numa compartimentação de pintura construtiva. No fim, o peso das coisas acaba incerto, assim como se – numa segunda olhada – uma montanha já fosse capaz de assumir outra forma dentro de uma espacialidade fechada e tão pouca solidária.

Pico Garcez lida com paisagens que se sustentam pela fragilidade. Raras vezes o artista escapa de uma relação arenosa e meio fria com as vistas que fotografa. As cenas se apresentam vazias ou dispersas, um tanto que detidas a certo desvirtuamento daquilo que revelam. Mas acredito que esse fôlego baixo consegue, ao mesmo tempo, dar à maior parte delas certa estaticidade de uma existência tranquila em meio à deterioração de toda a solidez do real. Nas obras, blocos vazios lembram um passado em que já foram preenchidos, bem como árvores caducam de quando já tiveram folhas. 

Jean Delumeau, em História do medo no Ocidente, escreve que a angústia consiste numa espera dolorosa frente a um perigo tanto mais temível quanto menos claro. Da minha parte, diria que a fotografia de Pico é um tanto tenebrosa exatamente por ser meio angustiante. Resistente como montanhas de cartolina, a firmeza das coisas vira sinônimo de incerteza a ponto de duas cercas plantadas num rio parecerem tão firmes quanto o seu reflexo na água. E, sob a luz de um entardecer alaranjado, o horizonte se confunde numa neblina estranha e os elementos, feridos, param de distinguir onde começam e terminam. Fica difícil, nessas fotos, entender se é a natureza que fracassa ou se somos nós que, de tanto olhar, já não conseguimos separar o mundo daquilo que sobrou dele.

Acho meio difícil encarar as esculturas de Ted Benvenuti sem pensar em armadilhas. Isso, por um lado, na esteira do quanto são espinhosas e, por outro, pela maneira como colocam as nossas crenças por um fio. Se entendermos que o equilíbrio troncho entre os materiais soa forçado a ponto de podermos deformar um pedaço de tronco para ele caber num esquema, os elementos sucumbem também a certa forma de adaptação quase claustrofóbica em regras preliminarmente dadas.

Mas o fato é que, ao torcer um serrote ou posicionar essa infinitude de elásticos para reiterar alguma firmeza, fica claro o esforço por não deixar as coisas cederem rápido demais – ou por evitar que a noite termine antes que todas as suas promessas já estejam cumpridas. A armadilha de Ted está mesmo em acreditar demais na beleza do mundo. É, afinal, uma barra polir essas madeiras com tanta excelência. Só que, para todo empenho artesanal, acho também que os trabalhos acabam alimentando um esforço por aderir sempre aos caminhos difíceis. Mesmo porque as suas formas, apesar de oscilarem, resistem um bocado para revelar algo mais do que a literalidade do mundo. E, sendo os pesos e apoios um tanto precários, os materiais parecem também enfrentar a possibilidade de permanecerem apenas sensíveis. Talvez num sentido de emancipação dos materiais sobre eles mesmos, ou dos nossos próprios olhos sobre a maneira como enxergarmos o mundo. 

Angerami, Pico e Ted parecem lidar com uma mesma aposta de que os sentidos enganam e que a realidade já deu bandeira branca faz tempo. Só que, por alguma razão, vale a pena continuar pintando, fotografando ou esculpindo como se essas atividades pudessem garantir alguma redenção. Dá para dizer que o fim da linha é uma espécie de teimosia lúcida pela linguagem justamente porque ela não promete mais nada. E cada um dos artistas lida à sua forma com essa beira. Se um engrossa a tinta até que ela pese mais do que a paisagem, outro fotografa a fragilidade das coisas ou torce madeira até as configurações de tudo ficarem prestes a se romper. Parece ser aí o fio entre o empenho por aquilo que você acredita e o fracasso da natureza, das promessas e do real. Entendo que seja aí que os trabalhos se encontram.

Gabriel San Martin

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